Sala de Espera

Destaco o último comprimido da cartela de anticoncepcional e tomo. Ainda de pijama, em meu banheiro, dou uma última olhada para aquela cartela, agora vazia. Jogo-a no lixo, com um sorriso serelepe, como quem se despede de uma visita que se estendeu mais do que devia.

Um mês, três meses, seis meses, um ano. Nada.

Recebo um convite para comparecer a um prédio, a uma sala específica. Vou.

Quando chego, vejo um corredor vazio. Gasto alguns minutos encarando a porta. A placa à minha frente diz: sala de espera. Coloco a mão na maçaneta, hesito. Não entro. Deve haver algum engano — não pertenço a essa sala. Vou embora.

O tempo segue e tento esquecer aquele convite. Me ocupo, ocupo a agenda — não há tempo para lembrar dele. Busco, incessantemente, formas de dizer a mim mesma que não precisarei entrar naquela sala. É uma questão de tempo, de procurar melhor a resposta, da tecnologia certa, de fé.

Mas a vida, astuta que é, me encaminha novas intimações pelos mais diferentes caminhos.

Retorno ao prédio com um incômodo no peito. Há movimento — pessoas entrando e saindo das salas, rodas de conversa acontecendo no corredor. Enrolo. Me distraio. Tomo um café, dois, uma água, vou ao banheiro, entro em mais de uma roda de conversa. De canto de olho, encaro a porta.

Não entro. Ainda digo, mesmo que silenciosamente, que não pertenço àquele lugar.

Dois anos, três anos, a primeira FIV, a segunda FIV. Nada.

Sou vencida pelo cansaço diante da convocação. Não há mais forças para fugir — e quase como uma imposição da vida, o único recurso disponível é a rendição.

Entro na sala.

Estou sozinha, mas sei que no prédio há muitas salas como essa.

Olho tudo com calma. Ela não parece um lugar tão feio, tão desconfortável como eu havia imaginado e me convencido que seria. Ela me acolhe. Em um canto, uma grande cadeira de madeira com detalhes em palha e um porta-livros ao lado. No outro, uma pequena cômoda com abajur e um vaso de planta bem verdinha.

Após um longo suspiro, me sento na cadeira, deixo meu peso cair sobre ela. Sinto algumas lágrimas escorrendo pelas minhas bochechas, assimilando aquele novo espaço e me permitindo estar ali. Reflito sobre como foram necessários tantos aprendizados para que eu chegasse até aqui.

A pessoa que entrou na sala é tão diferente da que esteve na porta pela primeira vez — “papo de outro CPF”. Nem reconheço mais aquela versão.

Depois de um tempo, me pego inquieta, balançando sem parar uma das pernas. Abro apenas um olho, como criança que espia no corre-cotia.

Escolher como vou passar o tempo e focar no que tenho controle é tudo o que posso fazer. Busco uma revista Caras, um Sudoku para distrair.

Mais ambientada, reflito que ninguém me orientou a não deixar a sala. Tenho uma ideia.

Saio procurando por toda a sala um objeto, e o encontro na gaveta da cômoda: um pager, como aqueles que a gente recebe na fila do Outback.

Decido sair — não para negar ou rejeitar aquela sala ou o tempo de espera, mas porque posso fazer outras coisas enquanto espero.

Animada, abro a porta. Carrego comigo não apenas o pager, mas a aceitação e a esperança de que, quando chegar a minha vez, serei chamada.

❤️

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