Os planos adiados

Eu não comprei aquela viagem. Eu não me inscrevi naquela vaga. Eu não me mudei de casa. Eu não me inscrevi na prova de corrida que é daqui a seis meses.

Os últimos anos, planejados e sustentados por um “e se” que nunca chegou.

“E se eu estiver grávida?” Melhor esperar, adiar, ter certeza.

A gente se ilude achando que, assim, está no controle. Sou eu quem estou escolhendo, consciente, pensando no amanhã. Mas tentar se segurar no controle é como tentar controlar um kitesurf no meio de uma tempestade — o vento sempre ganha.

Vamos postergando, deixando para depois as vidas e possibilidades que já poderiam ser — e carregar esse peso, sem nenhuma garantia, cansa.

Parece que a vida de todas as pessoas ao redor está avançando — casa nova, trabalho novo, cachorro e filhos — e a nossa é uma longa pausa.

É como a sala de casa vazia, com o filme pausado na TV, a pipoca e a coberta no sofá, a Coca-Cola ainda gelada com o gelo derretendo, esperando a gente voltar para continuar. Mas eu ainda não voltei para o filme da minha vida.

Não me sinto a protagonista, nem a diretora. Se fecho os olhos, escuto o barulho do relógio: tic-tac, tic-tac, tic-tac. O tempo passando… e eu sem saber quanto tempo tenho, quanto tempo aguento, quanto tempo ainda falta.

Todo mês, uma nova oportunidade — e a sensação que me invade é a de que estou tão perto, quase lá, que se eu aguentar mais um pouquinho, só mais um pouquinho, eu chego lá. Como uma maratonista que já está com as pernas cansadas, trêmulas, mas avista a linha de chegada e ainda assim se recusa a desistir.

Acho que esse sentimento tem nome: esperança. E ela tem sido uma boa companheira nesse caminho. Eu diria que ela é fundamental — sem ela, já teria me deixado cair no chão por falta de fôlego, ignorando quão perto estava a linha de chegada. A esperança te levanta de volta, te ampara enquanto você precisa se apoiar, e corre com você os próximos quilômetros.

Mas não se engane: a esperança às vezes se comporta como criança travessa, que fica atrás da porta espiando, passa despercebida por um tempo — e quando você decide sair da pausa, ela sai de fininho, te lembrando que está bem ali. Ignorá-la me traz um mix de culpa com um sentimento de desistência.

Dar esse primeiro passo de volta aos meus planos é desafiador, pois me obriga a reconhecer que ainda não aconteceu — e a encarar tudo o que vem junto: a minha falta de controle, que o tempo não será o meu, a minha frustração e meu sentimento de impotência.

A cena que vem à minha cabeça enquanto escrevo é a de uma estação de trem. Estou parada, esperando o trem que sempre sonhei embarcar — mas ele ainda não passou, e não sei quando passará.

Quantos trens, com tantas outras oportunidades, momentos, experiências, projetos passaram — e eu não embarquei, esperando o tal trem.

Ainda estou aqui, estagnada na plataforma dessa estação.

Talvez você esteja aqui comigo.

Só temos o aqui e o agora.

Decido: vou pegar um trem. Não precisa ser o primeiro, ou qualquer um, claro — mas eu vou entrar. Você vem? Talvez o trem que desejamos possamos pegar numa estação mais adiante. Talvez ele esteja esperando por nós mais à frente — e para isso, precisamos ir.

Não quero deixar o “e se” definir meus trilhos, penso — e uma voz ecoa: “mas e se…?”

Quando o momento chegar, será o menor e o melhor dos meus problemas. Aí eu vejo, eu vendo, eu mudo, eu volto, eu remarco.

Então talvez o segredo seja trocar o “e se” pelo “enquanto isso”…

e enquanto isso, enquanto espero, vou viver.

❤️.

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