Dizem que nasce uma mãe, nasce uma culpa. Não, esse não é um texto sobre maternidade, é um texto sobre culpa e sobre o espaço que damos a ela em nossas vidas.
Eu ainda não sou mãe, então não esperava já viver acometida pelos sintomas da culpa.
Comecei a senti-los mais intensamente nos últimos dois anos — coincidentemente, o período em que saí do trabalho, no qual estava há treze anos, para empreender, e em que comecei o primeiro tratamento para engravidar, a FIV, depois de dois anos tentando naturalmente.
Profissionalmente, fui sentindo a culpa de um novo início: a pressa por resultados rápidos, quase imediatos, a urgência de dar certo, a culpa de ainda não ter remuneração, a culpa da provisão unilateral, a culpa de estar em casa — mesmo que trabalhando (e toda mulher sabe que estar em casa é garantia de trabalho em dobro: o profissional e os cuidados com a casa, somados) —, a culpa de me provar produtiva para mim mesma, de ficar no computador muito além do “horário comercial”, e o aperto no peito cada vez que alguém insinua que tenho tempo de sobra. Afinal, todos à minha volta saem pela manhã, dirigem seus carros, fazem reuniões, almoçam, respondem e-mails, retornam para casa. A culpa de não pertencer.
Pessoalmente, a culpa do resultado negativo, a culpa de algo em mim parecer não funcionar como deveria, a culpa de não avançarmos para a próxima fase das nossas vidas, a culpa de não corresponder às expectativas — minhas, muitas vezes —, a culpa do papel feminino, a culpa por não estar sabendo lidar, a culpa de, por vezes, precisar me acolher, de pausar tudo, de não ser produtiva, enquanto a vida segue seu rumo lá fora.
Imagética que sou, quando parei para refletir sobre a culpa, imaginei um quarto vazio. Na parede, um papel de parede roxo, bem roxo — roxo Lakers (time de basquete americano). A sala é escura, quase não tem luz. Me vi dentro desse quarto, minha camisa branca manchada no mesmo tom, como jatos de tinta que escorrem e imprеgnam, que colam no corpo como roupa de ginástica.
Me pergunto por que o roxo — e me recordo das aulas de arte: roxo é a mistura de vermelho com azul. Talvez seja essa a minha mistura: um pouco de raiva por sentir a culpa e não conseguir ser mais gentil e paciente comigo mesma, e um pouco de melancolia, fruto da autocobrança e do sentimento de insuficiência.
Olho para o lado. O papel de parede parece velho, gasto — talvez sempre tivesse estado ali. Há algumas bolhas que me convidam a enfiar os dedos e puxar um pedaço. Ouço o rasgar do papel. Encaro o buraco na parede; por detrás, vejo a parede branca.
— É arrancável!
Pouco a pouco, arranco todo o papel da parede. Não sobra nada. Junto, amasso, jogo tudo fora — no lixo —, com exceção de uma pequena bolinha do tamanho de uma bola de pingue-pongue. Assim como a sala, minha camisa está branca novamente. Mais leve. Guardo a bolinha no bolso para carregar comigo e tirar quando achar que devo.
Acho que há uma parte da culpa que me parece aproveitável em certos momentos: ela me lembra que não sou indiferente, que me preocupo com os outros e comigo. Se negligencio alguma coisa, ela também me deixa um pouco inquieta, faz com que eu me mova, não aceite ficar parada, me lembre de que o movimento vem de mim. Mas agora ela tem o tamanho adequado — não ocupa todo o espaço, não é maior que EU.
Há outro detalhe que talvez você não tenha notado: a sala. A minha culpa estava dentro de uma sala — e essa sala tem porta. A decisão de entrar, habitar ou quanto tempo permanecer sempre foi minha. Algo que claramente não havia me dado conta.
Respiro fundo, olho em volta. A sala agora é clara, tem luz. Percebo o ar — mais compaixão, mais paciência, mais amor. Olho minhas roupas, sinto a bolinha no bolso, dou um leve sorriso. Vejo a porta e decido sair por ela, sem previsão de volta.


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