Eu não sou jornalista. Nunca escrevi profissionalmente, com exceção de alguns e-mails cotidianos de trabalho, para documentar projetos, processos e tarefas. Meu primeiro diário escrevi recentemente, aos 35 anos. Sou de uma geração que viveu e ainda vivencia a tal transformação digital. Quando criança, vi nascer e morrer as agendas eletrônicas, pagers e BlackBerry. Vi surgir o iPhone, os primeiros aplicativos, os blocos de notas no celular, os quais eu também uso para listas de supermercado ou para ideias que não quero esquecer quando estou em meio a alguma atividade fora de casa.
Eu deveria ter me acostumado com tudo isso. Pertenço a uma geração da qual se espera que seja tecnológica — para cada tarefa, um app. “Você usa o Zoom? o Trello? o Notion? Google Drive, One Drive, qualquer coisa Drive? Qual a sua nuvem?”
Nuvem… uma palavra um pouco etérea, não? Uma espécie ainda não de todo conhecida. “Afinal, para onde vai tudo isso? Onde fica guardado?” Antigamente, tirávamos fotos e guardávamos em álbuns. Os meus estão na gaveta do rack da sala da casa da minha mãe, e eu adoro folheá-los e lembrar do tempo em que tudo era mais concreto.
Na casa da minha mãe há mais um fato curioso: meu padrasto trabalha há 30 anos na indústria de papel, o maior entusiasta e defensor do uso de papel que eu conheço. Ele é capaz de ficar horas num supermercado analisando cada embalagem. “Pesquisa de mercado”, ele diz. Talvez por isso, eu e minha irmã ainda saímos de casa até hoje acompanhadas de um planner de papel, na era em que “toda a sua vida cabe no seu bolso”.
Mas anotar algumas tarefas do dia, da semana, foi o mais perto que eu cheguei da escrita nos últimos anos — até começar a tentar engravidar, há 4 anos. Depois de viver a montanha-russa de emoções desse processo, comecei a sentir que alguma coisa em mim estava sendo contida, como ar dentro de uma bexiga cheia. Tentei diversas vezes expressar em palavras, mas algo dentro de mim bloqueava algumas expressões, como uma porteira que tenta conter o rebanho agitado.
Foi lendo um livro — O Caminho do Artista — que conheci a escrita terapêutica. Peguei um caderninho pequeno, simples, um lápis, e comecei a escrever três páginas todas as manhãs: aleatoriedades misturadas com as conversas mais profundas que já tive comigo. E ali, naquele pequeno espaço, comecei a transbordar, feito bueiro que enche com a chuva e a tampa não consegue conter.
Não havia mais porteira. O que a voz segurava para não vazar, o papel aguentava — sugava, na verdade, como se o lápis fosse um ímã e puxasse para si, para fora de mim, tudo aquilo que precisava sair, tudo o que precisava ser expressado.
Como se aquela água contida no bueiro aos poucos evaporasse e, sutilmente, saísse de mim pelos poros dos meus dedos.
E a cada dia que passava, fui ficando mais leve, mais vazia. O balde que continha a minha água não era mais eu — era aquele pequeno caderno.
Acho que esse é um novo hábito que desejo carregar para sempre: a escrita, como minha mais genuína e livre forma de expressão.
Acho que meu padrasto sempre soube — o papel pode ser mesmo um lugar especial.


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