Lidar Bem

Eu achei que saberia lidar bem.

Eu achei que a esta altura eu já saberia lidar bem.

De uma maneira geral, me considero uma pessoa que lida bem com os problemas.

Costumo me considerar uma pessoa otimista, positiva, que reclama pouco, que vê beleza nas pequenas coisas e que é genuinamente grata pelo que a vida já me proporciona, meu modus operandi.

Confesso que entrei no meu caminho de tentante com uma certa arrogância, crente de que as pessoas haviam exagerado e de que eu saberia lidar bem, afinal já tinha o mindset certo.

Era difícil, é verdade, mas sabia que era só uma questão de tempo, me mantinha esperançosa e igualmente grata pelos privilégios dessa caminhada, dava uma choradinha quando transbordava, mas logo enxugava as lágrimas, respirava fundo e meu padrão me levava a “melhorar”.

Comecei a minha primeira FIV, me preparei para a guerra e logo na fase dos hormônios, concluí que de fato haviam mentido para mim, não era tão ruim assim, passei bem, sem sintomas, sem dor e fiz a coleta com igual simplicidade. 

Na minha inocência, arrogância, esperança (ou todas as anteriores), decidi dividir um pouco da minha caminhada, afinal, eu me sentia muito sozinha e podia contar para outras mulheres que o caminho era menos assustador do que parecia (pelo menos até ali).

Eu precisava lidar bem, por mim, por elas. Alguém precisa lidar bem, de forma mais leve, com mais paz no coração, não é possível que fosse tão difícil, e esse alguém poderia ser eu, tinha que ser eu. “Esse é o meu superpoder”, era o que eu acreditava.

Até ali para mim, lidar bem era conseguir me manter feliz, grata, positiva, entregando o caminho para Deus.

À medida que eu caminhava e a cada etapa do processo, mais difícil era manter a minha positividade inabalável, mais o meu superpoder se tornava a minha criptonita.

Mais ele me sufocava.

Comecei a terapia e depois de um longo caminho aprendi um novo superpoder: SENTIR.

Tudo.

Tudo o que esse processo me convida (de forma quase impositiva) a sentir.

Não apenas os sentimentos “bonitos”, mas a tristeza, a frustração, o medo, a raiva, a ansiedade, a angústia.

Em algum ponto do caminho reassisti Divertidamente da Disney e chorei de soluçar. Me vi inteirinha naquela Alegria, querendo dominar o tempo todo e ignorando a presença da tristeza, não pelo medo de senti-la, mas pela inocência de acreditar que era o melhor.

Num determinado ponto do caminho entendi que lidar bem talvez seja apenas ser humana.

Lidar bem hoje significa ser consumida pela culpa em alguns momentos, descontar tudo em um bolo de chocolate em outros, orar pedindo paz no coração, acordar feliz e com mil planos e no mês seguinte acordar um dia sem ter nenhuma energia para executá-los, chorar quando me dá vontade, sentir o coração cheio de esperança e também de medo e admitir ambos em voz alta.

Em um determinado momento, eu achei que para Deus, lidar bem, era eu não sofrer, porque isso significaria que eu tinha fé nos planos dele e que eu havia entregado o meu caminho.

Talvez Deus queira apenas que eu sinta, que eu me lembre que sou humana e confie nos seus planos apesar da angústia e da falta de controle.

Se ele não quisesse que eu sentisse nada, teria me feito uma árvore, não humana (o que talvez ele até faça isso da próxima vez, para facilitar seu trabalho em me fazer entender os processos, as estações e o tempo das coisas…rs).

Não, sentir não torna o caminho mais fácil, nem mais bonito, pelo contrário, mas o torna mais real, mais genuíno, mais verdadeiro.

Faz com que eu tenha que admitir que mesmo depois de quase 5 anos, é com essa mulher inconstante, imperfeita e emocionada que ele tem que lidar…rs

Eu não tenho uma fórmula ou um jeito agradável de lidar com o caminho, também estou procurando…rs

Mas uma coisa eu sei, ao me permitir sentir, não me sinto mais sufocada, eu me esvazio e por consequência fico um pouco mais leve.

Não a leveza frágil de quem foge da dor, mas a leveza de quem está aprendendo a carregá-la com mais gentileza.

❤️

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